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Agora a Cores. [entries|archive|friends|userinfo]
bendji

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outros olhos lá atrás [Jul. 29th, 2009|01:22 am]
bendji
o estrangeiro chegou e todos se levantaram do bar. em brinde.
ele chegou e brindou. e sentiu o seu coração preso por uma linha transparente, ultrapassando fronteiras e chegando a outro sítio. ele levantou-se e dançou com as mulheres mais bonitas do boteco. havia canções novas mas a farra era a mesma. os olhos eram iguais. tudo estava na mesma, enquadrado e quieto numa paz estranha de se ser de sempre.
desta vez nesta chegada não era de sempre nem para sempre. e os seus olhos pareceram os mais distantes do mundo. sem pontes nem frases de cumplicidade. muito vazios.e isso trouxe-lhe água terna de se gostar muito. isso e o rum.
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madrugadas [Dec. 30th, 2008|06:04 am]
bendji
cá dentro de mim aconteceu esta noite que mil pensamentos correram rápidos e velozes demais para que dormisse muito bem e tranquila como sempre. a vida dá voltas, aliás a vida é ela mesmo uma enorme volta, um laço grande que se estende, em que o tempo volteia em si mesmo. a minha vida deu uma volta. como tantas outras. não foi uma volta que me transformasse, que modificasse aquilo que sou inteiramente. não, esta volta acrescentou-se-me. ao meu caminho.
mas no meio de voltas é fácil às vezes que os olhos fujam para o que passou, ou que tentem muito ver o que aí vem, que é diferente, é mudança e é mais frio. e o frio dá para fazer desportos de inverno mas também dá um medo grande. que a minha brasa dure sempre para ficar sempre quentinha.
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onde ondeia onda em mim [Nov. 9th, 2008|08:11 pm]
bendji
se ser mulher é ser o mar
então as minhas ondas quebraram-se
em costas longínquas
e a minha espuma perdeu-se no passado

as amarras tenho-as grossas cordas
ao sal marcadas de vento e tempestades
por elas passaram mãos vincadas
pelo frio dos dias

mãos de marinheiros
mãos de passagem
buscando lugares distantes
procurando um porto no meu corpo

se ser mulher é ser o mar
então o meu sal hoje faz ferida onde craveja
então a minha pele não é mais de algas
é recife que delimita e é fronteira.

se ser mulher é ser o mar
sou hoje mar quente caldo veraneante
que adormece e não é mais bravaria.
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drão [Nov. 1st, 2008|02:07 pm]
bendji

deambulo pelo amor. porque o sentido das coisas daquelas mais intensas que nos transformam e nos fazem pessoas diferentes, às vezes esse sentido inverte-se, desvanece-se. percebemos que existem outras estradas, que aquela onde íamos e sempre fomos felizes começou um dia a ficar muito estreita. tão estreita que andávamos sempre na fronteira com medo de sair desse caminho que sempre teve tanto sentido, tanta história, tantas pessoas comuns, tantos anos...tantas madrugadas.

sair do caminho custa e traz àgua a marejar nos olhos em dias mais cinzentos, de cansaço do trabalho ou em dias em que se quer de novo e ansiosamente o ninho que já não existe.

ser consigo.
a interdependência entre dois seres, aquela que é a mais sublime em que o pensamento de um e outro às vezes se mistura inconscientemente é impossível de ser cortada como se cortam as árvores se não dão mais fruto. há um processo que eu nunca entendi mas que hoje vejo claro e construído em muitas páginas que é de libertação um do outro. dum vínculo tão profundo e tão belo como o que une dois amantes e amigos. 

[aquela fotografia continua a ter pertença naquele quarto. nós existimos ainda com tanta certeza dentro de mim, transformados e crescidos. mais felizes. tenho a certeza que as mais belas histórias de um amor que termina e se modifica em paz, em abraço e em ternura continuam vivas no voo dos pássaros. nos bandos de andorinhas que continuam a inspirar a os poetas. tenho a certeza que as cartas, a poesia, as pinturas e toda a materialização de um amor que um dia termina e se modifica em paz - nada disso termina ou deve ser enterrado. isso foi fermento dos capítulos dos amantes. isso foi motor de um projecto que existiu durante tantos dias. isso é história de entrega e de amizade profunda. isso não acaba nunca. nós seremos sempre alguma coisa bela, brisa, terna e livre.

http://www.youtube.com/watch?v=VoOoS_1EtPs

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deambulações pelo amor [Oct. 29th, 2008|07:00 pm]
bendji

'De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal sagrado, efectivamente este grande sopro de agitação que por vezes passa sobre nós é um dos mais eficazes. Então está a sorte lançada, o ser com quem nos recreamos em determinado momento é o que iremos amar. E nem sequer é preciso que nos tenha agradado até então mais ou tanto como outros. O que é necessário é que o nosso gosto por ele se torne exclusivo. E essa condição é realizada quando - nesse momento em que ele nos fez falta - a busca dos prazeres que o seu encanto nos dava foi bruscamente susbstituída em nós por uma necessidade ansiosa, que tem por objecto aquele mesmo ser, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam impossível de satisfazer e difícil de curar - a necessidade insensata e dolorosa de o possuir.', Marcel Proust - Em Busca do Tempo Perdido I: Do lado de Swan, pág.245
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casa nostra [Oct. 26th, 2008|11:43 pm]
bendji



esta casa tem chão de tacos largos de madeira antiga. dantes perguntava-me quem é que teria já vivido aqui?
há muitos livros para ler nesta casa e páginas por começar. é bom começar.

(ela tinha esquecido que sabia ser uma só árvore. e que o seu tronco agora no outono continua muito firme, mudando a capa de folhas porque as folhas tornaram-se velhas, mudando a capa e ficando de ramos nua ao sol e à chuva.)

a televisão passa coisas sem o mínimo interesse. e cá em casa continua o chão de madeira quieto e uma presença tão terna dele que é de porte médio e olha sempre por nós. é verdade que os cães têm o olhar mais terno do mundo e nos dão sempre a pata quando se precisa. bom e quando não se precisa. são pata e colo e corpo todo no sofá às vezes na cama. os olhos desculpam sempre os pelos que se largam pelo caminho.

(o rapaz estava cada vez mais crescido e com ar de homem feito. talvez fosse da ginástica mas quando ela o via sentia um orgulho que pulsava muito dentro do seu coraçãozinho feito de algodão. sentia uma alegria bonita e leve como água pelos olhos saudáveis do rapaz. quando brincavam ainda no quintal e tinham um cão que se chamava xaina, trepavam juntos à oliveira. ela tinha umas pernas mais hábeis porque o rapaz era mais pequeno e ainda não pronunciava bem as palavras todas. subiam à oliveira e cada um tinha o seu posto de um grande navio, nave espacial, avião, motocicleta de dois lugares. não que eles houvessem visto uma motocicleta de dois lugares. naquelaa altura podiam ser mesmo o que quisessem e passavam tardes naquilo. no meio das azeitonas. a eugénia nunca dissera porque é que naquela casa não se fazia azeite bom daquela árvore centenária....)

lá em cima faz um bocadinho de solidão depois das escadas. existem núvens como as que apareceram um dia num filme bonito sobre uma avó e uma árvore e de como era tão parecidos os dois seres. existem núvens que representam duas coisas: a liberdade de se poder voar para onde se quer, a leveza de se dormir sem barulhos de pequeno almoço, de coisas matinais. as núvens não se vêm na verdade o segundo piso é ele mesmo uma parte de céu onde é sitio de sonhos e de dorminhices. às vezes é sitio de amor no outro quarto. o segundo andar é um belo andar amarelo e branco.

(5 6 7 8 9 10 aí vou euuuuuuu. muito baixinho ana tens de fazer pouco barulho se não o chico apanha-nos. as escadas denunciavam sempre o apanhador ou quem quer que fosse incumbido de investigar todos os esconderijos possíveis e imaginários daquele casarão. e já quase todos tinham sido descobertos - concerteza próximas gerações descobririam outros truques. talvez se fizessem obras e a casa aumentasse. mas é certo que naquele momento aqueles miúdos conheciam de cor todas as reentrancias e possibilidades por entre quartos, árvores, arbustos, e debaixo de qualquer móvel. dentro de móveis era também habitual alguém permanecer, normalmente de cócoras respirando muito baixinho e com algum medo a passar de repente pela cabeça rezando para que não houvesse bicho nenhum ali dentro.

ana vamos temos de ser muito rápidas agora. eu vou à frente. vamos pela copa direitinhas ao quintal. o chico está do outro lado. deslocaram-se por trás do cortinado. passos de pernas e sapatos de carneira a descer a escadaria ai meninas já lhes disse que não as quero em correrias nessa escada. olhe que qualquer dia vai cabeça nesse tapete....e qualquer dia....e já não se ouvia nada porque elas correram tão rapidamente que num fôlego passaram pela copa com a mesa do lanche já posta bateram muito pelos azulejos da zoinha deram um salto de gigante para o quintal e num vaipe viram o joão de costas e agarraram-se à oliveira "um dois três ana e maria não salvam ninguém". o ar desapontado do chico ficava como fotografia coçando os grandes caracois com a mão esquerda e pensando na última hipótese de ganhar a partida - faltava o zé.)


 


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(no subject) [Oct. 10th, 2008|05:34 pm]
bendji
tirou um livro fininho dos que se leêm num trago e nos trazem belas palavras e nos invadem a vida com personagens tão bonitas que só podiam mesmo existir em histórias que alguém imaginou. o chá quente, o livro, uma mantinha e alguém que sempre prepara um chá, com umas mãos sábias fazendo um cachecol. 
leu a tarde toda. mergulhou na história de uma menina que tinha dois amigos imaginários. mas isso é outra história e outro mundo que nos distrai da laura.

olhou para a sua avó e pensou que queria imenso que ela não morresse nunca. talvez se pensasse muito sobre isso ela não morresse e continuasse trabalhando trabalhando trabalhando. como se o mexer-se e pôr-se ao trabalho a mantivessem cheia de energia e com um coração tremendo de força. faz a sopa, pega nos netos, bota a panela ao lume, planta dois morangueiros.

"Tilita trabalhas tanto!" disse-lhe lá da copa depois de um assobio de sol de inverno.
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laura [Oct. 9th, 2008|09:43 pm]
bendji


quando chegava sentia-se um perfume muito bom que era só seu. mas só quando as pessoas encostavam por acaso a sua face à dela ou ao seu pescoço. ela tinha um cheiro muito bom de fruta e de qualquer coisa suculenta.

houve uma tarde em que a laura entrou num rompante pelo hall. vinha cheia de chuva, uma camada de gotas muito grossas fazia-lhe um manto sobre um casaco vermelhão de lã. garrido daqueles que a avó trouxera de estremoz.
ela vinha carregada dessa água. a trança loira pendia-lhe por um dos lados. toda ela era frescura cabelos e pele na mesma camada de água. e lá fora a chuvada continuava, lavando tudo.

a laura entrou de repente salpicando tudo no hall, os tacos encharcados iam denunciá-la durante um longo dia húmido. as manchas correram o chão de madeira desde o hall até à copa onde guardou finalmente o chapéu de chuva.
tirou casaco despiu-se muito e ficou quase pele dentro de um robe. pôs-se num sofá muito quente e alguém que sempre prepara chá, tinha-lhe aquecido uma chávena.

a laura ficou mais quente por uns minutos, e o seu perfume soube-lhe muito mais fresco como se ela se tivesse lavado e despido e deixado alguma coisa para trás.  quando cruzou com o seu pescoço sentiu-lhe o perfume diferente. ficara ainda uns restos depois da chuva.

mas a sua pele era agora mais limpa. alguma coisa se transformara nessa tarde.

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CÂNTICO NEGRO [Jul. 31st, 2008|03:09 pm]
bendji
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho os com olhos lassos,

(Há nos meus olhos ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...



A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre a minha Mãe.



Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...



Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Porque me repetis: "Vem por aqui"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...



Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.



Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?

Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...



Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...



Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.



Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

- Sei que não vou por aí!

José Régio
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sonhar.te [Jul. 21st, 2008|10:11 pm]
bendji
[mood |impressedimpressed]

 há um vagar 

há a viagem e o meu peito passeia por lugares que não lhe pertencem

há um vagar 

e a minha cabeça dormita encostada a lisboa acordando num transporte público

há um vagar 

e o meu cérebro dilui-se em sonhos e metáforas não explicadas

há um dorminhar

e aí estampado no meu inconsciente

um rosto e umas mãos muito simples e verdadeiras que sonhadas.

são as tuas. 

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